Pensamento ibero‑americano

Revista da Secretaria-Geral Ibero-Americana


Finanças Sustentáveis na Iberoamérica: Lições da Experiência Coreana

Won-Ho Kim

Professor Emérito, Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, Coreia do Sul

Introdução: Um Novo Momento para os Laços entre a Coreia e a Ibero-América

O proposito principal deste artigo é analisar o cenário em rápida evolução das finanças sustentáveis na Ibero-América e explorar como a expertise abrangente em políticas públicas da República da Coreia fornece um roteiro vital para a região. À medida que as nações ibero-americanas se esforçam para as ambiciosas metas estabelecidas pelo Acordo de Paris e pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, enfrentam a monumental tarefa de traduzir as narrativas climáticas em realidades econômicas e institucionais duradouras. Nesse contexto, embora possam existir múltiplas questões na relação global entre a Coreia e a Ibero-América, o tema da troca de experiências em finanças sustentáveis deve ser considerado particularmente oportuno.

A conclusão da COP30 em Belém do Pará marcou uma mudança qualitativa na abordagem global das florestas e da natureza no âmbito da diplomacia climática. O lançamento do Mecanismo Bosques Tropicales para Siempre (Tropical Forests Forever Facility) conferiu um forte destaque político ao financiamento para adaptação de longo prazo e uso da terra. O Brasil e seus parceiros conceberam o Mecanismo como um instrumento para recompensar a conservação comprovada das florestas tropicais e tornar os bosques em pé mais rentáveis do que o desmatamento, com compromissos iniciais de bilhões de dólares e a meta de ampliar ainda mais esses recursos. Para os países ibero-americanos, que possuem uma enorme proporção das florestas tropicais e biodiversidade remanescente no mundo, essas decisões globais transformam os recursos ecológicos em um poder de negociação tangível e em oportunidades de desenvolvimento sem precedentes.

Paralelamente, o recente relatório SEGIB-GGGI sobre Finanças Sustentáveis na Ibero-América documentou como a região está passando rapidamente de projetos-piloto isolados para uma agenda sistêmica. Essa agenda se baseia em condições facilitadoras – tais como taxonomias nacionais, requisitos de divulgação ASG (Ambiental, Social e Governança), rotulagem orçamentária climática e sistemas de Monitoramento, Relatórios e Verificação (MRV) – bem como em instrumentos inovadores como títulos temáticos, fundos climáticos e trocas de dívida por natureza. O relatório destaca que as finanças sustentáveis não são mais um conceito de nicho; são uma ferramenta macroeconômica central para alinhar as estratégias de desenvolvimento com os compromissos ambientais e a Carta Ambiental Ibero-Americana. Situar o diálogo Coreia-Ibero-América dentro desse ecossistema intelectual ajuda que a relação transcenda as narrativas baseadas em eventos. Representa um processo de aprendizagem mútua focado em abordar as assimetrias de poder, fomentar a cooperação Sul-Sul e construir instituições duradouras capazes de resistir à volatilidade política e econômica.

Liderança Ibero-Americana e desafios financeiros estruturais

A COP de Belém elevou as florestas e o uso do solo de uma questão secundária a um pilar central do regime climático global. As autoridades brasileiras apresentaram explicitamente essas novas arquiteturas de financiamento como iniciativas impulsionadas pelo Sul Global, coordenadas entre países com florestas tropicais e projetadas para fortalecer o multilateralismo, reservando, ao mesmo tempo, recursos essenciais para os povos indígenas e comunidades locais. Para a Ibero-América, isso representa uma oportunidade única de articular um modelo de desenvolvimento no qual as florestas tropicais, a biodiversidade e a bioeconomia se tornem ativos produtivos centrais, em vez de externalidades controladas à margem.

Vários países ibero-americanos já experimentaram inovações biofinanceiras pioneiras que combinam gestão de dívidas, conservação e objetivos sociais. A troca de dívida por natureza da Ilhas Galápagos, no Equador, por exemplo, reestruturou uma parte significativa de suas obrigações externas em troca de compromissos de longo prazo com a conservação marinha. Essa operação envolveu a recompra estratégica de uma parcela substancial dos eurobônus do Equador com um desconto significativo, marcando uma das maiores trocas comerciais de dívida por natureza da história. De forma semelhante, o Uruguai emitiu títulos soberanos vinculados à sustentabilidade que vinculam os pagamentos de cupom diretamente ao desempenho do país em indicadores climáticos e de sustentabilidade selecionados, como a redução das emissões de gases de efeito estufa e a conservação da floresta nativa. A taxonomia das finanças sustentáveis do México representa outro marco global, pois inclui explicitamente considerações de igualdade de gênero junto à mitigação climática, integrando assim prioridades sociais diretamente ao arcabouço regulatório financeiro, em vez de tratá-las como salvaguardas ex post. Outros avanços notáveis incluem o roteiro de finanças verdes do Peru, que incorpora considerações ambientais na gestão estratégica e operacional das instituições financeiras.

Apesar desses casos de sucesso, a região enfrenta sérios desafios estruturais. Conforme os relatórios do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a região deve investir, anualmente, pelo menos 3,12% de seu PIB – totalizando entre 2,1 e 2,8 trilhões de dólares até 2030 – para fechar a lacuna de infraestrutura e cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Diante dos cenários macroeconômicos complexos, espaço fiscal limitado e o alto endividamento, esperar um impulso massivo no investimento público resulta pouco realista. Na América Latina e no Caribe, o investimento público em infraestrutura ronda por debaixo de 1,5% do PIB, um número que muitas vezes é o primeiro a ser cortado durante períodos de ajuste fiscal. Consequentemente, a mobilização de capital privado e desenvolvimento de parcerias público-privadas inovadoras se tornaram imperativas. No entanto, a região sofre com a falta de estruturas regulatórias homogêneas, o que complica a comparabilidade e interoperabilidade dos investimentos sustentáveis. Embora a Ibero-América tenha capacidade intelectual e institucional para liderar o desenho de finanças sustentáveis, transformar essas inovações dispersas em uma arquitetura regional duradoura exige vontade política persistente e continuidade burocrática.

Arquitetura Integrada da Coreia para as Finanças Sustentáveis

Para enfrentar esses desafios estruturais, a Ibero-América pode aproveitar lições profundas da Coreia. O “milagre coreano” demonstrou anteriormente que é possível alcançar um crescimento econômico robusto, conjuntamente a uma redução da desigualdade; atualmente, a Coreia está demonstrando que a industrialização rápida pode ser desvinculada da degradação ambiental. É importante destacar que o sucesso da Coreia em finanças sustentáveis não é a história de um único mecanismo emblemático, mas a integração progressiva de três pilares fundamentais: estruturas regulatórias, mecanismos de mercado e infraestrutura de implementação.

No âmbito regulatório, as autoridades coreanas, lideradas pelo Serviço de Supervisão Financeira (FSS, sigla em inglês), têm trabalhado sistematicamente para integrar à supervisão financeira as considerações ASG e climáticas. O risco climático é tratado estritamente como risco financeiro. O FSS conduziu proativamente testes de estresse climático – tanto de cima para baixo quanto de baixo para cima – em colaboração com a comunidade científica do clima para avaliar o impacto sistêmico da crise climática nas instituições financeiras. Uma pedra angular dessa abordagem regulatória é a K-Taxonomia, que fornece uma estrutura definitiva para definir o que constitui atividades ambientalmente sustentáveis, orientando tanto políticas públicas quanto investimentos privados. Reconhecendo que a complexidade técnica frequentemente atua como uma barreira para banqueiros e corporações, a Coreia desenvolveu o Sistema de Suporte da K-Taxonomia. Essa ferramenta digital avançada analisa a documentação do projeto e sugere automaticamente se uma atividade está alinhada com as definições verdes, reduzindo drasticamente a incerteza para as equipes de crédito. Além disso, para prevenir a “lavagem verde (greenwashing)”no mercado de crédito, a Coreia introduziu Diretrizes de Empréstimos Verdes, que fortalecem a conformidade interna e garantem que os fundos de empréstimos verdes estejam rigorosamente alinhados com a K-Taxonomia e sujeitos a revisão externa.

O segundo pilar baseia-se em mecanismos de mercado robustos, com destaque especial para o Sistema Coreano de Comércio de Emissões (K-ETS). Lançado em 2015, o K-ETS é um dos mercados de carbono mais abrangentes do mundo, compreendendo seis gases de efeito estufa e quase 80% das emissões nacionais em múltiplos setores. Entrando em sua quarta fase (2026-2030), o sistema está fortalecendo seu limite de emissões para alinhar com as Contribuições Determinadas a Nível Nacional do país e expandindo suas tarifas de leilão para 50% para o setor elétrico. Fundamentalmente, as receitas de leilões não desaparecem do orçamento geral do governo. Em vez disso, são canalizadas diretamente a um Fundo de Resposta ao Clima, que chegou aproximadamente a US$ 1,7 bilhão nos orçamentos recentes. Isso cria um ciclo sustentável de financiamento climático, onde os fundos são reinvestidos em infraestrutura para redução de emissões, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias verdes e em uma transição justa para indústrias vulneráveis.

O terceiro pilar, frequentemente negligenciado nos debates internacionais, porém essencial para uma transição justa, é uma robusta infraestrutura de implementação que protege os atores de menor porte de serem excluídos da economia verde. O Fundo de Garantia de Crédito da Coreia (KODIT) exemplifica essa abordagem. Fundado em 1976, o KODIT possui décadas de experiência na facilitação do acesso corporativo ao financiamento. No contexto da transição verde, desenvolveu um sistema de Avaliação da Capacidade de Gestão, ASG, para pequenas e médias empresas. Em vez de simplesmente impor novas e onerosas regulamentações a empresas menores, o fundo oferece garantias de crédito personalizadas, plataformas de dados e programas de consultoria para empresas que demonstram compromisso com os princípios ASG. Empresas com altas classificações recebem benefícios financeiros específicos e tratamento preferencial, garantindo que as PMEs tenham acesso ao capital necessário para uma modernização sustentável. Um ponto chave da experiência coreana é que essa arquitetura sobreviveu a mudanças no governo porque passou a fazer parte das “regras do jogo”, sendo profundamente institucionalizada em estruturas legais, normativas de governança corporativa e planejamento fiscal.

Rumo a uma agenda compartilhada para transições justas e baseadas na natureza

A convergência entre a liderança ibero-americana em finanças baseadas na natureza e a experiência da Coreia na construção de uma arquitetura financeira verde integrada oferece terreno fértil para uma relação transpacífica renovada. O papel da Coreia não se limita mais ao de um doador ou exportador tradicional de tecnologia; o país se posicionou como um parceiro estratégico na construção de ecossistemas industriais verdes. É possível extrair várias implicações estratégicas para moldar uma agenda compartilhada e viável entre a Coreia e a Ibero-América.

Em primeiro lugar, os marcos ASG e de finanças sustentáveis precisam ser cocriados com os atores nacionais interessados para manifestar as realidades regionais, em vez de serem importados no atacado. A Ibero-América já demonstrou liderança nessa área, como visto na taxonomia com perspectiva de gênero do México e na abordagem distinta do Brasil para adotar os padrões internacionais de sustentabilidade. Um diálogo focado entre a Coreia e a Ibero-América poderia se concentrar no desenho comparativo de taxonomias, mecanismos de reconhecimento mútuo e na implantação de ferramentas digitais – como o Sistema de Suporte à K-Taxonomia da Coreia – para ajudar as instituições financeiras locais a operacionalizar facilmente essas taxonomias sem incorrer em custos administrativos proibitivos.

Em segundo lugar, para manter a credibilidade do mercado e evitar a lavagem verde, a região deve passar da condicionalidade baseada em métricas para a condicionalidade estrita baseada em resultados. A Ibero-América pode se basear em exemplos bem-sucedidos, como a troca de dívida por natureza do Equador, onde os benefícios financeiros estão estritamente vinculados a resultados ambientais e sociais verificáveis. A forte ênfase da Coreia nos sistemas MRV e sua capacidade de monitoramento pode complementar perfeitamente a experiência ibero-americana no desenho de contratos fundamentados na natureza, ligados a ecossistemas e comunidades locais. Essa sinergia abre as portas a trabalhos metodológicos conjuntos, à cooperação triangular com bancos multilaterais de desenvolvimento e a projetos-piloto em áreas como energia renovável, restauração florestal e infraestrutura pública digital.

Em terceiro lugar, há um imperativo compartilhado de combinar as reformas regulatórias com grandes investimentos em capacidade de implementação. Impor novas regulamentações verdes sem fornecer meios para cumpri-las corre o risco de marginalizar atores econômicos menores. O relatório SEGIB-GGGI ressalta a importância do treinamento de profissionais do setor financeiro e do fortalecimento das instituições públicas. A prática da Coreia de integrar assistência técnica com apoio financeiro – exemplificada pelo uso combinado de garantias, dados e serviços de consultoria por parte do KODIT – oferece um modelo muito concreto para a Ibero-América. Garantir que instituições financeiras locais e pequenas empresas recebam consultoria ASG adequadas e incentivos financeiros é categórico para uma transição inclusiva que não afaste as empresas de menor tamanho da economia verde.

Finalmente, tanto os resultados de Belém quanto o debate intelectual ibero-americano mais amplo assinalam à necessidade urgente de isolar os compromissos climáticos centrais dos curtos ciclos eleitorais, preservando, ao mesmo tempo, a prestação de contas democrática. Na Coreia, logrou-se essa estabilidade ao integrar as metas de zero emissões diretamente em leis, os mandatos de supervisão e estruturas fiscais. Na Ibero-América, garantir a continuidade pode involucrar o estabelecimento de disposições ambientais constitucionais, conselhos fiscais independentes com mandatos climáticos ou a elaboração de pactos regionais sob os auspícios da SEGIB para estabelecer padrões mínimos de governança. Uma parceria mais profunda com a Coreia poderia apoiar o desenho dessas salvaguardas institucionais, garantindo que as oportunidades inovadoras da bioeconomia abertas pela COP30 e as práticas regionais não sejam prejudicadas pelas oscilações políticas.

O futuro das finanças sustentáveis na Ibero-América apresenta um panorama repleto tanto de imensas oportunidades como de desafios estruturais complexos. As finanças atuam como ponto de entrada imediato, porém a agenda subjacente é muito mais ampla: redefinir estratégias nacionais de desenvolvimento em torno da resiliência ecológica, da inclusão social e da transformação produtiva. Ao institucionalizar a cooperação em taxonomias, sistemas de relatórios, instrumentos baseados em resultados e infraestrutura de implementação, a Coreia e a Ibero-América podem ir além das relações transacionais padrão. Juntas, possuem a capacidade intelectual e institucional para contribuir a uma nova fase da governança econômica global, onde o verdadeiro valor das florestas, da biodiversidade e das capacidades humanas se cogita não apenas nos discursos diplomáticos, mas que esteja profundamente enraizado nas regras e incentivos centrais do sistema financeiro internacional.

Em destaque

A Coreia e a Ibero-América, em conjunto, possuem a capacidade intelectual e institucional para contribuir a uma nova fase da governança econômica global, na qual o verdadeiro valor das florestas, da biodiversidade e das capacidades humanas se cogita não apenas em discursos diplomáticos.

Won-Ho Kim: é professor emérito na Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, Coreia do Sul, e professor distinguido na Universidade de Liaocheng, na China. Ele é colunista do The Korea Economic Daily e membro do Conselho Consultivo Internacional da Universidade Autônoma de Nuevo León (UANL), no México. É doutor em Políticas Públicas pela Universidade do Texas, em Austin. www.wonhokim.org

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