Pensamento ibero‑americano

Revista da Secretaria-Geral Ibero-Americana


Da estratégia ao investimento: uma oportunidade única para a Iberoamérica na transição a uma economia sustentável

Randall Hooker

Oficial Sênior de Finanças para a América Latina e o Caribe no Global Green Growth Institute (GGGI)

A conversa sobre finanças sustentáveis evoluiu rapidamente nos últimos anos. O que antes era complementar dentro do sistema financeiro agora é um componente central no alinhamento dos fluxos de capital com os objetivos do clima e do desenvolvimento. No entanto, na Iberoamérica, persiste uma lacuna crítica: a distância entre a ambição – cogitada nas Contribuições Determinadas Nacionalmente (NDCs) – e o investimento eficaz necessário para alcançá-la.

Pela experiência do Global Green Growth Institute, que trabalha com governos nacionais e subnacionais, reguladores e atores do setor privado em vários países da região, o desafio não é a falta de comprometimento, mas a ausência de condições favoráveis e investimentos sustentáveis financiáveis que atendam aos padrões internacionais que permitam escalar o financiamento climático na velocidade e magnitude necessárias.

Uma análise realizada recentemente junto com a Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB) confirma essa realidade. A Iberoamérica fez progressos importantes: emissões soberanas de bônus verdes, desenvolvimento de taxonomias sustentáveis em países como o México e a Colômbia e roteiros de finanças verdes, como no Peru. Contudo, esse progresso permanece sendo desigual e, em muitos casos, fragmentado.

A região enfrenta quatro obstáculos estruturais. Primeiro, a fragmentação regulatória limita a interoperabilidade entre os mercados e dificulta a atração de capital internacional em larga escala. Segundo, a profundidade limitada dos mercados de capitais restringe o acesso ao financiamento de longo prazo. Terceiro, persistem lacunas técnicas na estruturação e no monitoramento de instrumentos financeiros sustentáveis. E quarto, o risco da lavagem verde (greenwashing) permanece latente diante dos sistemas de verificação que ainda estão sendo consolidados.

Porém, seria um erro focalizar apenas nos desafios. A Ibero-América é uma região que possui vantagens estratégicas que poucas regiões conseguem igualar, como a abundância de recursos renováveis, rica biodiversidade, mercados integrados conectados ao mundo, identidade cultural compartilhada e um ecossistema sólido de bancos de desenvolvimento e bancos privados que estão integrando critérios ASG nas suas avaliações de investimentos, permitindo assim um processo mais ágil na transição a um modelo de financiamento sustentável.

A Ibero-América tem uma oportunidade única diante de si. A transição para economias sustentáveis não é apenas uma necessidade ambiental, mas uma estratégia de desenvolvimento econômico e posicionamento geopolítico. Transformar essa oportunidade em realidade dependerá da capacidade da região de passar da fragmentação à convergência, e da ambição ao investimento.

Do nosso ponto de vista, três alavancas podem acelerar esse processo.

A primeira é a mobilização de capital privado. O financiamento público é, por definição, insuficiente. Reduzir a lacuna de investimento climático exige atrair investidores institucionais globais, e isso só será possível se os marcos regulatórios forem fortalecidos e se reduzem os riscos percebidos. Instrumentos de mitigação de riscos, como garantias parciais ou estruturas de financiamento misto (blended finance) serão essenciais para catalisar esses fluxos.

A segunda alavanca é a inovação financeira. A região já demonstrou sua capacidade de adotar instrumentos como bônus verdes, sociais e sustentáveis. No entanto, o próximo passo involucra escalar soluções mais sofisticadas, como bônus ou empréstimos vinculados à sustentabilidade (SLBs), troca de dívida por natureza ou desenvolvimento e plataformas de investimento climático. Esses instrumentos não apenas diversificam as fontes de financiamento, mas também alinham os incentivos entre governos, investidores e resultados ambientais.

A terceira alavanca é a integração regional. Um mercado fragmentado limita a escala. A convergência progressiva de taxonomias sustentáveis e padrões de reporte pode transformar múltiplos pequenos mercados numa plataforma regional mais atraente, líquida e competitiva.

Nesse contexto, a experiência da Coreia do Sul fornece uma referência útil. A Coreia não construiu seu ecossistema de finanças sustentáveis de forma orgânica ou espontânea; o idealizou a partir de uma estratégia deliberada.

O desenvolvimento de sua taxonomia verde – a K-Taxonomy – foi fundamental para alinhar a política industrial com as metas climáticas. Além disso, existe uma estrutura clara para a emissão de bônus verdes, que estabelece padrões rigorosos de transparência e verificação, reduzindo a improbabilidade para os investidores.

Igual de relevante tem sido o papel do Estado. Instituições financeiras públicas atuaram como catalisadoras, mobilizando capital a setores estratégicos como a energia renovável e a mobilidade limpa. Paralelamente, a Coreia investiu de forma constante no desenvolvimento de capacidades técnicas, criando um ecossistema de profissionais especializados em finanças sustentáveis. Prova disso é a crescente mobilização de capital privado na Coreia do Sul mediante o mercado de bônus temáticos. Somente em 2025, a Coreia emitiu bônus temáticos em mercados internacionais por mais de €38,97 bilhões por meio de 481 bônus de 69 emissores1.

O resultado foi claro, com um mercado mais profundo, confiável e alinhado aos critérios ambientais, sociais e de governança (ASG).

Apesar disso, transferir essas lições para a Ibero-América não implica replicar modelos, mas sim adaptá-los. A região possui diferentes realidades fiscais, institucionais e produtivas. No entanto, há elementos que podem ser implementados progressivamente.

A harmonização das taxonomias, por exemplo, não requer uniformidade absoluta, mas requer interoperabilidade. Os incentivos públicos, desde benefícios fiscais até mecanismos de primeira perda, podem ser estrategicamente projetados para maximizar seu impacto com recursos limitados e a adoção gradual dos padrões de divulgação ASG pode melhorar significativamente a transparência do mercado.

Nesse processo, a cooperação internacional desempenha um papel central. A articulação entre o Global Green Growth Institute e a Secretaria Geral Ibero-Americana abre uma oportunidade concreta para ampliar soluções em nível regional, tomando como exemplo as lições aprendidas com países como a Coreia do Sul.

Na GGGI, trabalhamos diretamente com governos e o setor privado para transformar compromissos climáticos em projetos financiáveis. Isso involucra não apenas o desenho de políticas, mas também a estruturação de portfólios de investimentos, o desenvolvimento de instrumentos financeiros e a conexão de projetos com fontes de capital.

Olhando para o futuro, uma agenda birregional com a Coreia do Sul poderia acelerar este processo mediante a transferência de conhecimento, formação de capacidades e desenvolvimento de projetos-piloto. A criação de plataformas de coinvestimento e fóruns técnicos permanentes possibilitaria institucionalizar essa cooperação.

A Ibero-América tem uma oportunidade única diante de si. A transição a economias sustentáveis não é apenas uma necessidade ambiental, mas uma estratégia de desenvolvimento econômico e posicionamento geopolítico. Transformar essa oportunidade em realidade dependerá da capacidade da região para passar da fragmentação à convergência, e da ambição ao investimento.

Na GGGI, estamos convencidos de que esse caminho não somente é possível, mas sim urgente, e estamos prontos para colaborar nesse processo.

Uma agenda birregional com a Coreia do Sul poderia acelerar o processo de traduzir os compromissos climáticos em projetos financiáveis na Ibero-América, mediante a transferência de conhecimento, fortalecimento de capacidades e desenvolvimento de projetos-piloto. A criação de plataformas de coinvestimento e fóruns técnicos permanentes possibilitaria institucionalizar essa cooperação.

1 Dados obtidos do LGX Datahub da Bolsa de Valores de Luxemburgo.

Randall Hooker: Randall Hooker é Oficial Sênior de Finanças para a América Latina e o Caribe no Global Green Growth Institute (GGGI), onde lidera programas regionais encaminhado à mobilização de recursos para investimentos sustentáveis.

* As opiniões expressas nos artigos e vídeos da revista Pensamento Ibero-Americano são de responsabilidade exclusiva dos seus autores e não refletem necessariamente o ponto de vista da Secretaria-Geral Ibero-Americana.

A publicação da revista Pensamento Ibero-Americano pela SEGIB responde a sua vocação de serviço à comunidade ibero-americana, contribuindo para a difusão dos principais debates intelectuais da atualidade. A revista está, portanto, aberta a opiniões diversas, sem exclusões, que, por sua vez, são o resultado da pluralidade e da diversidade de visões no âmbito ibero-americano.

Consulte também a nossa política de privacidade, el aviso legal e nossa política de cookies.