Pensamento ibero‑americano

Revista da Secretaria-Geral Ibero-Americana


Impactos socioambientais da IA: não é a eficiência, mais sim a política

Paz Peña

Fundadora do Instituto Latino-Americano de Terraformação

Os crescentes impactos socioambientais da Inteligência Artificial (IA) não são um problema de eficiência ou de vontade, mas sim parte fundamental de um modelo econômico e político centrado em um punhado de empresas muito poderosas que estão empenhadas em consolidar suas redes de poder e reconfigurar a infraestrutura econômica global em seu favor.

Nesse cenário, a pergunta é qual é o papel dos governos da Ibero-América, sobretudo quando parece que somos considerados apenas como parte da socialização dos custos ambientais da economia da IA. Em um cenário geopolítico conturbado e em um século XXI no qual o poder hegemônico estará, de fato, em disputa, o papel de nossos países pode encontrar uma saída por meio de estratégia, criatividade e solidariedade.

Uma verdade incômoda

Não é mérito, é o desenho do modelo: o frenesi em torno da IA sustenta-se em uma narrativa de determinismo e inevitabilidade tecnológica que a apresenta como o único futuro possível, levando governos e investidores a financiar projetos por medo de ficar para trás. Esse é o caso de vários países da Ibero-América, que investem apesar de não existirem condições para competir em igualdade: a IA de ponta depende de chips especializados, propriedade intelectual e centros de dados em hiperescala concentrados em um pequeno número de fornecedores externos. A concentração de recursos determina quem obtém as vantagens estratégicas e econômicas e quem estabelece as condições de acesso, preços e governança de dados, ampliando a distância entre países criadores e consumidores.

O caso do Latam-GPT reflete essa situação: embora tenha sido apresentado como um modelo desenvolvido por e para a América Latina com o objetivo de fortalecer a soberania digital, utiliza uma arquitetura da Meta e é treinado sobre infraestrutura da Amazon. Isso demonstra que a soberania e a capacidade de competir não dependem apenas do desenvolvimento de modelos, mas também do controle da infraestrutura digital, dos dados, da energia e das regras que sustentam esses sistemas.

O frenesi é concebido para, por um lado, alimentar uma bolha econômica que permite a empresas de IA deficitárias atrair capital de risco (como a OpenAI, que perde três vezes mais do que ganha), ao mesmo tempo em que desvia a atenção dos debates sobre riscos existenciais ou impactos socioambientais. Por outro lado, o consumo massivo facilita aquilo que Cory Doctorow denomina “enshittification” (“merdificação”), processo pelo qual as plataformas primeiro se tornam indispensáveis para capturar o usuário e depois extraem valor de forma agressiva e consolidam seu domínio.

Os custos socioambientais do modelo

Esse modelo de frenesi em torno da IA necessita da expansão global de seus centros de dados. As grandes empresas utilizam esse investimento para blindar sua posição dominante e executar um modelo de negócios inverso, queimando bilhões de dólares em perdas operacionais enquanto forçam uma dependência cognitiva e infraestrutural em usuários e concorrentes menores. Essa expansão é o alicerce material e político que garante que o poder permaneça concentrado em uma elite capaz de sustentar essa corrida de resistência financeira.

Além disso, as corporações precisam planejar uma distribuição mais diversificada e estratégica dos centros de dados devido às necessidades de treinamento e inferência dos modelos, que exigem características como baixa latência e acesso eficiente a energia, água e terrenos. Isso explica por que o Brasil concentra um terço dos centros de dados da América Latina, enquanto Chile e México se consolidam como mercados emergentes: seus governos oferecem políticas para facilitar o acesso a recursos críticos, incluindo a operação em lacunas regulatórias socioambientais. Essa lacuna permite privatizar os lucros corporativos enquanto os custos ambientais são socializados sobre comunidades locais e orçamentos públicos, em um contexto de ausência de participação social, falta de transparência e no qual o consumo de recursos como a água é classificado como segredo comercial.

Seu catálogo de impactos socioambientais implica, no mínimo, falar de água e energia. Um centro de dados em hiperescala pode consumir até 19 milhões de litros de água por dia para resfriamento, o equivalente ao consumo de uma cidade de 50 mil habitantes, algo crítico em territórios com estresse hídrico. Por outro lado, uma única consulta de IA requer até dez vezes mais energia do que uma busca tradicional. O consumo elétrico dos centros de dados em 2025 (448 TWh) poderia suprir as necessidades domésticas anuais de toda a população da África Subsaariana durante 2,6 anos. Isso sobrecarrega as redes locais, aumenta os preços da eletricidade para os consumidores nos Estados Unidos e obriga ao uso de usinas movidas a combustíveis fósseis para garantir o abastecimento.

Nesse contexto, alguns países da Ibero-América com matrizes energéticas mais limpas parecem destinos atraentes; no entanto, essa vantagem é enganosa: atrai-se infraestrutura de grande escala sem uma avaliação suficiente de seus impactos acumulados sobre os sistemas energéticos, nem se reflete politicamente sobre o poder concedido a essas corporações na transição energética de nossos países.

Uma política socioambiental para a IA

Até agora, o discurso corporativo sustenta que a sustentabilidade da IA será alcançada principalmente por meio da eficiência dos processos. No entanto, o Paradoxo de Jevons demonstra que a melhoria da eficiência tecnológica costuma levar a um aumento do consumo total de recursos. E, embora existam avanços técnicos para reduzir o impacto ambiental, trata-se de medidas isoladas que não são replicadas globalmente e pouco respondem à escalada do sistema. Nesse contexto, uma política socioambiental sobre a IA a partir da Ibero-América não deve concentrar-se apenas em medidas de eficiência nem na implementação de marcos regulatórios sérios, transparentes e participativos que, embora necessários, são insuficientes. Uma política socioambiental séria para a IA na Ibero-América deve ser a mesma política econômica digital que se desacople do frenesi da IA e busque, nas alternativas tecnológicas, novos espaços de sustentabilidade econômica, humana e ambiental. Isso só será alcançado regionalmente, com diálogo multilateral, criatividade e determinação. Talvez este conturbado século XXI, mais do que uma crise das hegemonias, seja também uma oportunidade para nossos países.

Paz Peña: Consultora chilena especialista nos impactos socioambientais das tecnologias digitais na América Latina. Fundadora do Instituto Latino-Americano de Terraformação e autora do livro “Tecnologias para um planeta em chamas. Os perigos do tecnocapitalismo e a necessidade de uma transição digital justa na era da crise climática e ecológica” (Paidós, 2023).

* As opiniões expressas nos artigos e vídeos da revista Pensamento Ibero-Americano são de responsabilidade exclusiva dos seus autores e não refletem necessariamente o ponto de vista da Secretaria-Geral Ibero-Americana.

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