Habitamos uma crise global marcada por posições polarizadas e dinâmicas socioculturais que tendem a diluir o comum em prol de subjetividades que se impõem no calor do crescimento de regimes virtuais de relação, nos quais as normas de convivência democrática e o respeito à diversidade se tornam difusos.
O esvaziamento que o sistema democrático sofre — aquilo que começou a ser chamado de “pós-democracia” — vai desvalorizando lutas como as dos direitos humanos, do meio ambiente, da diversidade e do bem comum, colocando-as do lado dos “privilégios”, em vez de sustentar sua reivindicação como direitos universais. Por outro lado, fala-se muito de inovação, uma noção que frequentemente se encontra atrelada a um impulso de mudança que se impõe de maneira excludente. Levando isso em consideração: por que não repensar uma forma de inovação centrada nas necessidades da cidadania, em vez de deixar que o ritmo seja marcado pelos interesses dos grandes capitais concentrados? Por que não encarar a revisão das dinâmicas instituídas, o resgate das boas práticas e o descarte daquelas que contribuíram para cimentar esta crise?
É necessário recriar alinhamentos solidários, estabelecer condições capazes de contribuir para o surgimento de novos diálogos dos quais emerjam posições mais construtivas.
O âmbito específico do mundo da arte e da cultura, assim como os setores que ele ajuda a dinamizar (pequenos e médios empreendimentos de diversos perfis, turismo etc.), exibe — dentro da lógica instituída — sua fragilidade diante dos avanços das grandes multinacionais (Amazon frente à livraria do bairro; a turistificação dos lugares frente à experiência situada que respeita os tempos e as necessidades dos moradores locais; a comunicação fugaz frente ao tempo narrativo-reflexivo…). É necessário reconverter-se segundo essas tendências inovadoras ou é possível imaginar outras alternativas?
Aqueles que temos o olhar e a ação situados na cultura, ensaiamos maneiras de intervir nesse cenário partindo da reivindicação — entre os direitos humanos — do direito à cultura, uma vez que esse direito permite dar visibilidade a muitos outros. Esse é um dos pontos de partida que nos levou a conceber e desenvolver a BIENALSUR (o projeto experimental que está na base desta proposta). Fazendo um exercício de in-disciplina, a BIENALSUR busca romper as inércias, explorar outras regras do jogo, descobrir diversidades, aceitar o erro e o “não entender” como parte do processo e exercitar um trabalho solidário e colaborativo no entre uns e outros, para construir um nós possível no encontro do comum, do entre todos.
Nesse sentido, é produtivo retomar e dinamizar as relações e os intercâmbios fluidos entre os países ibero-americanos em busca de construir um ecossistema artístico-cultural comum, que permita identificar uma zona singular dentro do sistema global.
Pensemos a crise como uma oportunidade para reposicionar a IBERO-AMÉRICA com uma sinergia enriquecida, que não apenas permita recuperar níveis de produção e desenvolvimento preexistentes, mas, melhor ainda, que favoreça a emergência criativa de novos caminhos.
Contribuir para a construção de uma comunidade cultural na qual convirjam a história, a memória e os esforços atuais de um e outro lado do Atlântico na construção de um espaço comum, no surgimento de uma outra geografia cultural capaz de considerar práticas socioculturais e territórios como parte de um mesmo sistema.
Geografia cultural aparece como metáfora em relação à espacialidade (real, virtual, simbólica) que se busca construir e, ao mesmo tempo, como um recurso conceitual eficaz para pensar estratégias de diferenciação dentro do processo globalizador, que tem tendido a impor padrões culturais homogeneizantes. O que poderia ser melhor do que ações que partam da produção simbólica para contribuir para a desativação dessas tendências e para a construção de um novo espaço capaz de acolher as diversidades sociorregionais em convergência?
Essa geografia cultural que aqui proponho como uma das 30 ideias para a Ibero-América é in-disciplinada, admite a dúvida, o ensaio e erro e reivindica a pequena escala, a proximidade, a confiança e o trabalho colaborativo e em rede, que é aquele que contribui para a construção desse ecossistema cultural sustentado por alianças e cumplicidades que se constroem na complementaridade de fortalezas e fragilidades.
Dessa forma, propõe-se o desenvolvimento de um espaço cultural onde as identidades, as produções e as economias criativas possam ser repensadas de maneira complexa, levando em consideração as singularidades de cada lugar e comunidade, sua história e seus modos de construir o comum, suas formas de experimentar o cotidiano e de processar os passados nos presentes, sem traí-los.
Lembremos que, durante as últimas décadas do século XX e as primeiras do século XXI, a crescente internacionalização do mundo da cultura impôs importantes modificações nas dinâmicas nacionais e transnacionais, configurando circuitos, identificando coletivos sociais que transitavam por eles, desenhando agendas, estabelecendo prioridades e reforçando as lógicas de centros e periferias. Nesse processo, foram implementadas políticas públicas e privadas que impactaram tanto instituições tradicionais quanto o desenvolvimento de outras novas, assumindo a ideia de que a cultura é um fator para o desenvolvimento de cidades, regiões e suas respectivas economias. Assim, os “recursos culturais” (patrimônio, criatividade, indústrias culturais etc.) aparecem como um valioso capital dentro desse complexo cenário atravessado por numerosas variáveis. Compartilhar, respeitar, promover, valorizar e expandir a variedade de recursos culturais presentes e potenciais de um e outro lado do oceano faz parte do desafio desta proposta de configuração de uma geografia cultural pensada como uma trama em construção contínua: porosa, flexível, capaz de dar lugar a experiências e temporalidades de intensidades diversas.
Pensa-se na construção de uma trama cuja urdidura una pontos distantes entre si ao mesmo tempo que respeite a singularidade de cada um deles. Que se perceba a centralidade de cada um, ao mesmo tempo em que se tenha consciência de fazer parte de uma trama maior, aquela que, na pluralidade e de forma polifônica, dá indícios da singularidade desta geografia cultural ibero-americana. A chave para o desenvolvimento desta ideia é a horizontalidade, o diálogo, a capacidade de ver e escutar o outro, de perder-se e voltar a encontrar-se, de duvidar e ensaiar, de descobrir convergências, explorar alianças e fazer da trama o lugar do comum. Algo que é possível replicar, com suas singularidades, na configuração de outras geografias culturais em outras latitudes.





