Falar do futuro da mulher ibero-americana não é falar de algo que virá amanhã, como se estivéssemos esperando autorização para existir. Esse futuro já está caminhando. Caminha com as mulheres que cuidam da roça, com as que ensinam a língua aos seus filhos, com as que estudam na cidade sem esquecer a sua comunidade, com as que defendem um rio, com as que sustentam uma igreja de bairro, com as que denunciam a violência, com as que se colocam diante do poder e dizem: até aqui.
Mas é preciso dizê-lo claramente: esse futuro não chegará sozinho. Há estruturas antigas demais tentando impedi-lo. O racismo, o machismo, o classismo e o colonialismo não são palavras de discurso; são realidades que se sentem no corpo. Sentem-se quando uma mulher indígena não é ouvida porque usa sua indumentária tradicional. Sentem-se quando uma mulher afrodescendente tem de provar o dobro para que lhe reconheçam metade. Sentem-se quando uma camponesa fala da terra e lhe dizem que isso não é política. Sentem-se quando as decisões são tomadas longe do território, em escritórios frios, entre pessoas que nunca puseram os pés na lama nem sentiram medo porque uma empresa, um Estado ou um grupo armado ameaça a vida da sua comunidade.
O futuro da mulher ibero-americana dependerá de uma pergunta simples: vamos continuar a pedir espaço ou vamos ocupá-lo com dignidade? Eu acredito que já não estamos em tempo de pedir autorização. É hora de participar, decidir e transformar.
Na Ibero-América, as mulheres têm sustentado a vida durante séculos. Cuidamos dos doentes, criamos filhos, protegemos os alimentos, guardamos a memória, resistimos a guerras, migrações, pobreza e abandono estatal. Mas sustentar a vida não pode continuar significando carregar tudo sozinhas. O cuidado deve deixar de ser uma obrigação silenciosa das mulheres e tornar-se uma responsabilidade social, política e econômica. Um país que não cuida de quem cuida está construído sobre uma injustiça.
A mulher ibero-americana do futuro não será uma única imagem. Não será apenas a profissional urbana, nem a líder comunitária, nem a mãe, nem a religiosa, nem a jovem feminista, nem a defensora ambiental. Será tudo isso e muito mais. O problema é que, durante muito tempo, quiseram nos dividir: indígenas contra mestiças, urbanas contra rurais, crentes contra feministas, jovens contra as mais velhas. Essa divisão convém ao poder. Porque, quando as mulheres se reconhecem diferentes, mas aliadas, movem estruturas inteiras.
Um dos grandes desafios será mudar a forma de entender a liderança. Ensinaram-nos que liderar é mandar, competir, subir, falar mais alto. Mas muitas mulheres vêm de outra escola: liderar também é escutar, acompanhar, cuidar, sustentar processos longos, pensar nos que virão depois. Isso não é fraqueza. É outra forma de poder. Um poder que não destrói, mas semeia.
Também é preciso falar da Casa Comum. Para muitas mulheres indígenas, defender a natureza não é uma moda ambientalista. É defender a própria vida. Quando um rio é contaminado, não é apenas a água que é afetada; é a saúde, a alimentação, a cultura, a espiritualidade, a infância e a memória. Quando a floresta é destruída, destrói-se também uma forma de compreender o mundo. E aí as mulheres têm estado na linha de frente, muitas vezes pagando preços elevadíssimos: ameaças, ridicularização, perseguição judicial, perseguição política e solidão.
Por isso, o futuro da mulher ibero-americana será ecológico ou não será. Não podemos falar de igualdade enquanto os nossos territórios forem tratados como zonas de sacrifício. Não podemos falar de desenvolvimento se esse desenvolvimento adoece as comunidades, expulsa os povos e mata os rios. As mulheres estão mostrando que a economia deve estar a serviço da vida, e não a vida a serviço da economia.
Outro campo urgente é a participação nas instituições, incluindo as religiosas, políticas, acadêmicas e comunitárias. Muitas estruturas dizem valorizar as mulheres, mas continuam tendo dificuldade em colocá-las nos espaços onde se tomam decisões. Querem nos manter na base, organizando, servindo e acompanhando; mas, quando chega a hora de assinar, votar, dirigir ou definir rumos, surgem as resistências. Isso precisa mudar. Não basta convidar-nos para falar: é preciso compartilhar o poder.
E compartilhar o poder não significa colocar uma mulher para a fotografia. Significa aceitar que as mulheres trazem perguntas incômodas, propostas novas e formas diferentes de fazer as coisas. Significa compreender que a igualdade não é decoração institucional, mas transformação real.
Às jovens ibero-americanas eu diria algo muito simples: não tenham medo da sua voz. Muitas vezes nos educam para agradar, para não incomodar, para esperar o momento certo. Mas o momento certo quase nunca chega se não formos nós a empurrá-lo. Falem na sua língua, com o seu sotaque, a partir da sua história. Não permitam que ninguém lhes diga que, para serem ouvidas, precisam se parecer com aqueles que sempre mandaram.
O futuro da mulher ibero-americana será mais forte se unir memória e rebeldia. Memória para não esquecer as avós que resistiram sem microfones nem reconhecimento. Rebeldia para não aceitar que nossas filhas herdem as mesmas violências com outros nomes.
Vimos de povos feridos, sim, mas também de povos sábios. Sabemos semear depois do incêndio. Sabemos cantar em pleno luto. Sabemos nos organizar quando tudo parece perdido. Por isso, não olho para o futuro com ingenuidade, mas também não com derrota. O futuro da mulher ibero-americana já começou. Está nas comunidades, nas ruas, nas universidades, nas igrejas, nos tribunais, nos territórios e nas casas. Falta muito, é verdade. Mas algo já mudou: já não estamos caminhando atrás. Estamos caminhando à frente e, desta vez, não vamos sozinhas.





