Pensamento ibero‑americano

Revista da Secretaria-Geral Ibero-Americana


O futuro do agro na América Latina: inteligência, dados e uma oportunidade histórica

Victoria Alonsopérez

Fundadora da Chipsafer

A América Latina tem uma oportunidade histórica de se tornar líder global em tecnologia agropecuária. A região já é uma potência na produção de alimentos, com alguns dos maiores exportadores de carne, grãos, frutas e commodities agrícolas do mundo. No entanto, o próximo salto de valor não virá apenas de produzir mais, mas de produzir de forma mais inteligente, eficiente e sustentável. E, nesse processo, a inteligência artificial será protagonista.

Uma das indústrias que mais se beneficiará da inteligência artificial nos próximos anos será, sem dúvida, o agro. Durante décadas, o campo operou com experiência, conhecimento herdado de geração em geração e conhecimento profissional. Esse saber continua sendo inestimável, mas hoje pode ser potencializado por uma nova camada de inteligência baseada em dados.

Existem cada vez mais sensores distribuídos no campo: dispositivos que monitoram a umidade do solo, a temperatura, a qualidade da água, o estado das lavouras, a localização do rebanho, o comportamento animal, o consumo de alimento, cercas virtuais e variáveis climáticas em tempo real. A quantidade de informação gerada cresce exponencialmente, e o importante é transformá-la em decisões úteis.

É aí que entra a inteligência artificial. Um sistema capaz de analisar milhões de dados provenientes de sensores e imagens de satélite pode identificar padrões invisíveis ao olho humano, antecipar riscos e recomendar ações concretas. Isso permitirá que os produtores sejam mais eficientes, reduzam perdas, aumentem a produtividade e adotem práticas mais sustentáveis.

A agropecuária de precisão é especialmente relevante para a América Latina, onde convivem grandes extensões produtivas com desafios crescentes relacionados às mudanças climáticas. Secas, inundações, eventos extremos e variabilidade climática obrigam a produzir com maior precisão. Sensores e imagens de satélite, juntamente com a inteligência artificial, podem ajudar a antecipar cenários e reagir antes que o problema afete a rentabilidade do produtor.

Na pecuária, por exemplo, tecnologias de monitoramento remoto permitem detectar doenças, reduzir perdas, melhorar o bem-estar animal e aumentar a eficiência operacional. Esse tipo de solução já demonstrou que a América Latina pode inovar a partir de seus próprios desafios para criar soluções globais. A Chipsafer nasceu no Uruguai, em 2012, justamente com essa visão: empoderar os produtores rurais por meio do uso da tecnologia satelital e da internet das coisas, permitindo rastrear seu rebanho de forma autônoma e remota, melhorar o controle da saúde animal, aumentar a eficiência e a sustentabilidade de suas operações, reduzir os custos operacionais e otimizar o uso dos recursos naturais. Desde 2024, a Chipsafer faz parte da NuSpace, empresa singapurense que desenvolve e opera satélites, demonstrando que a inovação nascida na região pode despertar interesse global.

Um dos impactos mais transformadores do uso de sensores e inteligência artificial será o acesso a serviços profissionais. Grande parte dos produtores agropecuários da América Latina encontra-se em áreas rurais remotas, onde o acesso a veterinários, engenheiros agrônomos, técnicos especializados ou consultores nem sempre é fácil. Em muitos casos, a distância encarece os custos e atrasa respostas críticas. Quando surge um problema no campo, muitas vezes é preciso esperar a chegada de um profissional. Esse tempo pode significar perdas econômicas importantes. Na sanidade animal, por exemplo, uma detecção tardia pode comprometer a produtividade ou disseminar doenças. Na agricultura, uma praga detectada tardiamente pode afetar uma safra inteira.

A tecnologia muda completamente essa dinâmica. Se os sensores já estão coletando dados constantemente, os algoritmos podem analisá-los em tempo real, detectar anomalias e alertar imediatamente o profissional responsável. Eles podem inclusive oferecer hipóteses sobre o que está acontecendo e sugerir alternativas de ação com base em dados históricos, clima e padrões semelhantes. Em seguida, o especialista humano poderá validar essa informação e orientar o produtor remotamente, indicando o que fazer sem necessidade de deslocamento imediato. Isso não substitui o profissional: potencializa-o. Permite que seja mais eficiente, atenda mais casos e se concentre onde realmente agrega valor. Em outras palavras, a inteligência artificial democratiza o acesso ao conhecimento especializado.

Outro ponto importante em que a tecnologia é fundamental é a rastreabilidade. Os consumidores internacionais querem saber de onde vem aquilo que consomem, como foi produzido e sob quais padrões ambientais e sanitários. Isso abre uma enorme oportunidade para a América Latina. A região já possui vantagens naturais; agora deve transformá-las em vantagens verificáveis digitalmente. Quem puder demonstrar baixas emissões, bem-estar animal, uso eficiente da água ou produção livre de desmatamento terá acesso preferencial a mercados premium. Blockchain, sensores e plataformas integradas são ferramentas fundamentais para alcançar esse objetivo. A rastreabilidade deixará de ser um diferencial para se tornar um requisito.

Também veremos uma forte expansão das AgFinTechs: soluções financeiras desenvolvidas para produtores rurais. Acesso a crédito baseado em dados produtivos, seguros paramétricos climáticos, pagamentos digitais e financiamento de carbono serão cada vez mais comuns. Milhões de pequenos e médios produtores hoje são insuficientemente atendidos pelo sistema financeiro tradicional. A tecnologia pode reduzir essa lacuna e gerar inclusão financeira real.

Outro fator decisivo será a conectividade. Grande parte do território rural latino-americano ainda carece de infraestrutura digital robusta. Sem conectividade não há agricultura inteligente. Por isso, o avanço dos satélites de órbita baixa, das redes privadas, das telecomunicações rurais e das soluções híbridas será determinante. Em muitos casos, a conectividade via satélite será mais rápida e eficiente do que esperar pela infraestrutura terrestre tradicional.

Além disso, o talento empreendedor regional está amadurecendo. Há uma década existiam poucos fundos especializados e um ecossistema limitado. Hoje existem aceleradoras, venture capital voltado para foodtech e agtech, empresas em busca de inovação aberta e universidades mais conectadas ao setor produtivo. Países como Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia e México já apresentam casos de sucesso e uma base sólida para escalar.

No entanto, o principal desafio continua sendo o custo da tecnologia. Muitas vezes não falta tecnologia: falta adoção por razões econômicas. O futuro do AgTech dependerá da criação de soluções simples, com retorno econômico claro e adaptadas à realidade do produtor. A inovação não deve ser imposta da cidade para o campo; deve ser construída junto com o produtor.

A América Latina tem a oportunidade de desenvolver tecnologia própria, exportá-la e liderar uma nova etapa do agro mundial. Se conseguirmos resolver os desafios que a região enfrenta hoje, como as mudanças climáticas, as grandes extensões produtivas, o acesso limitado a serviços e a pressão por maior sustentabilidade, com inovação, colaboração e foco no produtor, não apenas melhoraremos a produtividade e a sustentabilidade local, mas também posicionaremos a região como uma referência global em AgTech. O futuro do agro latino-americano será definido pela capacidade de transformar dados em decisões, tecnologia em impacto e conhecimento em oportunidades.

Victoria Alonsopérez : Engenheira eletrotécnica uruguaia, fundadora da Chipsafer, empresa pioneira no desenvolvimento de soluções baseadas em tecnologia satelital e Internet das Coisas (IoT) para a monitorização remota e em tempo real do gado. Em 2024, a Chipsafer foi adquirida pela empresa singapurense de tecnologia espacial NuSpace.

* As opiniões expressas nos artigos e vídeos da revista Pensamento Ibero-Americano são de responsabilidade exclusiva dos seus autores e não refletem necessariamente o ponto de vista da Secretaria-Geral Ibero-Americana.

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