As empresas latino-americanas que ultrapassaram fronteiras — as multilatinas — estão expostas a tendências globais transformadoras, como as mudanças tecnológicas, as tensões geopolíticas e a reconfiguração das cadeias globais de valor, que as obrigam a repensar suas estratégias de crescimento em meio aos desafiadores contextos nacionais e regionais em que atuam. Diante dessas tendências, não se trata apenas de competir fora do mercado doméstico, mas de fazê-lo de forma resiliente, escalável e legítima, a partir de contextos nacionais que combinam oportunidades e fragilidades institucionais.
As empresas multilatinas sempre demonstraram preferência pelo seu entorno regional mais próximo. Os choques recorrentes nas cadeias globais de suprimentos — pandemias, interrupções logísticas, custos de transporte e tensões comerciais — mostraram que apostar em hubs distantes implica riscos crescentes. As multilatinas estão reafirmando a região como plataforma de expansão: a América Latina oferece proximidade cultural e de mercado, frequentemente menores custos logísticos para clientes regionais, vantagens competitivas em termos de tempo de resposta e proximidade geográfica com os Estados Unidos, onde há uma numerosa diáspora latino-americana.
O fortalecimento da regionalização envolve dois movimentos complementares: criar redes de suprimentos dentro da região e reafirmar os países vizinhos como plataformas de escala para ampliar o mercado. Os principais desafios incluem reconfigurar a rede de fornecedores regionais para consolidar e apoiar o crescimento das multilatinas, investir em centros logísticos regionais e desenvolver produtos com variantes que otimizem transporte e tarifas. Entretanto, o grau de reorganização das cadeias produtivas e de valorização do entorno latino-americano depende, em grande medida, de fatores geopolíticos e da fragmentação regulatória decorrentes, em primeiro lugar, das tensões comerciais entre os Estados Unidos e seus principais parceiros comerciais.
O impulso do nearshoring nos Estados Unidos como nova tendência na organização das cadeias produtivas após 2020 gerou oportunidades para que várias multilatinas buscassem participar mais ativamente dessas cadeias voltadas ao mercado norte-americano. Além disso, as atuais tensões geopolíticas e a fragmentação normativa (controles de exportação, regras sobre dados e sanções setoriais) acrescentam uma complexidade operacional que as multilatinas precisam administrar de forma ativa. No entanto, não basta avaliar os mercados apenas por seu tamanho e potencial de crescimento: é preciso mapear os riscos regulatórios, o alinhamento de normas e a exposição a medidas extraterritoriais.
Para as multilatinas, a capacidade de gerir a incerteza — entre outros aspectos, antecipar mudanças regulatórias e desenvolver estruturas jurídicas e tecnológicas robustas — constitui um diferencial construído ao operar em ambientes nacionais frequentemente marcados por elevada incerteza regulatória e instabilidade institucional. Diante desses desafios, as multilatinas precisam reforçar seus esforços para adquirir recursos e desenvolver processos relacionados ao desenho de cadeias alternativas de suprimentos, à georreferência de dados sensíveis e à implementação de estruturas avançadas de compliance corporativo. A rentabilidade desses esforços também depende da diplomacia empresarial, da atuação em atividades de advocacy e da colaboração com os governos para harmonizar padrões.
As empresas ibéricas — as multinacionais espanholas e portuguesas — compartilham com as multilatinas a necessidade de repensar estratégias diante da regionalização, da digitalização e da fragmentação geopolítica. Seu porte relativo e sua experiência histórica em mercados internacionais lhes permitem aproveitar a revalorização do entorno regional: muitas dessas empresas já atuam como plataformas regionais na Europa, na África e na América Latina, adaptando cadeias de suprimentos e serviços para reduzir riscos logísticos e responder com rapidez às demandas dos clientes locais. Ao mesmo tempo, sua capacidade financeira e seu acesso aos mercados de capitais europeus facilitam investimentos em centros logísticos, plantas modulares e aquisições que fortalecem o nearshoring regional.
O sucesso internacional de uma multilatina não depende apenas de sua proposta de valor ou de sua tecnologia voltada para os mercados externos; depende também do ambiente institucional doméstico. Estado de Direito, transparência, eficiência aduaneira, incentivos à pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) e educação técnica moldam as capacidades locais e estão entre as variáveis que melhor explicam a competitividade internacional das empresas nacionais.
Por isso, a harmonização, no âmbito nacional, entre as políticas dos governos latino-americanos e as estratégias de suas empresas mais competitivas internacionalmente constitui uma dimensão essencial para o futuro dessas organizações. Quando há conflitos internos e desalinhamento entre as visões dos setores público e privado, ou quando as instituições nacionais são frágeis, as empresas tendem a desenvolver estratégias defensivas e a internalizar funções — governança, formação de talentos e gestão de riscos —, além de frequentemente liderarem coalizões destinadas a desenvolver essas capacidades e mitigar os riscos domésticos. Com isso, reduzem sua capacidade de empregar recursos e aproveitar plenamente as oportunidades existentes no exterior.
Para além do contexto institucional, a adoção de modelos digitais e de plataformas permite que as multilatinas ampliem sua escala com custos marginais decrescentes em serviços, distribuição e atendimento ao cliente. Plataformas de comércio eletrônico, soluções fintech para pagamentos e crédito e softwares de gestão reduziram as barreiras de entrada em novos mercados, mas também impulsionaram o surgimento dos unicórnios latino-americanos. Para essas multilatinas, a digitalização torna possível replicar infraestruturas comerciais sem duplicar fábricas físicas, medir o comportamento dos clientes com elevado nível de detalhamento e automatizar processos de operações transfronteiriças, ampliando sua atuação internacional em uma velocidade jamais vista.
Mais do que adotar tecnologias específicas, a plataformização transforma a lógica de negócios dessas empresas: os unicórnios deixam de competir apenas por produto para competir por participantes e redes (usuários, fornecedores e desenvolvedores). Os unicórnios multilatinos com capacidade para operar plataformas — mercados digitais, redes logísticas e soluções SaaS adaptadas à América Latina — capturam efeitos de rede em diversos países e tornam-se atores centrais dos ecossistemas regionais de empreendedorismo digital. Isso exige investimentos em arquiteturas de TI (Tecnologias da Informação) escaláveis, governança de dados e capacidades analíticas e digitais relacionadas às tecnologias de inteligência artificial (IA).
As empresas precisam desenvolver estratégias de interoperabilidade, modelos de governança de dados e equipes que integrem produto, tecnologia e conhecimento do contexto local com uma visão holística e uma adoção responsável da IA, diante do risco de que essa tecnologia amplie os problemas sociais e as desigualdades já existentes na região, colocando em risco o contrato social dos países.
Alcançar um equilíbrio aceitável entre os diferentes interesses diante das disrupções provocadas pelas mudanças tecnológicas exige uma visão regulatória e capacidade de inovação empresarial. A inovação nos contextos latino-americanos possui uma lógica própria. A escassez relativa estimula soluções criativas e eficientes: a inovação frugal — o desenvolvimento de produtos e serviços de alto valor a baixo custo — transforma-se em uma vantagem competitiva exportável. As multilatinas que aprendem a inovar em ambientes de restrições podem oferecer soluções adequadas a outros mercados que enfrentam desafios semelhantes. Desenvolver produtos para consumidores de baixa e média renda em seus mercados domésticos e, posteriormente, adaptá-los para outros mercados abre uma importante janela de oportunidades. Entre os exemplos estão tecnologias de saúde acessíveis, modelos fintech derivados das necessidades de inclusão financeira e soluções logísticas concebidas para operar em contextos de infraestrutura limitada.
Em termos de digitalização e inovação, muitas multinacionais espanholas e portuguesas aceleraram a plataformização de seus negócios — de serviços públicos (utilities) e bancos até turismo e varejo —, o que lhes permite ampliar a escala de seus serviços sem replicar infraestruturas físicas e oferecer soluções frugais adaptadas a contextos emergentes. Sua vantagem competitiva reside na combinação de know-how tecnológico com experiência em gestão de risco regulatório e governança de dados; isso facilita a colaboração com multilatinas locais por meio de alianças, joint ventures e transferência de capacidades. No entanto, o sucesso sustentável exige sensibilidade institucional: investir em capacitação, cocriar marcos regulatórios e participar de coalizões público-privadas para fortalecer o Estado de Direito e a infraestrutura produtiva local. Somente assim essas empresas — ibéricas e latino-americanas — poderão transformar a expansão internacional em desenvolvimento regional inclusivo.
No entanto, o sucesso sustentável exige sensibilidade institucional: investir em capacitação, cocriar marcos regulatórios e participar de coalizões público-privadas para fortalecer o Estado de Direito e a infraestrutura produtiva local. Somente assim essas empresas — ibéricas e latino-americanas — poderão transformar a expansão internacional em desenvolvimento regional inclusivo.
O futuro das multilatinas não será uma repetição das trajetórias do passado. Hoje, mais do que nunca, exige-se uma combinação de adaptabilidade regional, excelência tecnológica, inovação adequada ao contexto, capacidade de gestão política e compromisso institucional e social. As empresas que conseguirem integrar essas dimensões terão maiores chances de ampliar sua escala, gerar empregos de qualidade e contribuir para o desenvolvimento nacional e regional. Esse caminho é plenamente viável desde que haja visão estratégica, investimentos seletivos e uma liderança capaz de compreender que competir, atualmente, significa transformar profundamente os contextos em que se atua. A forma como as multilatinas assumirem essa responsabilidade ampliada determinará não apenas seu sucesso, mas também seu legado para o florescimento humano na região.






