Para um grupo de teóricos alinhados com o neorrealismo de autores como Kenneth Waltz ou com o realismo mais clássico de Hans Morgenthau, a imagem do mundo hoje corresponde-se com a de um mundo bipolar, desta vez dividido em áreas de influência entre os Estados Unidos da América e a China. A confrontação parece mais evidente nas áreas político-ideológica ‒ ou de visão do mundo ‒ e económica, menos na área exclusivamente tecnológica, onde emergem outros competidores. Efetivamente, a atuação no cenário internacional das chamadas big tech como Google, Amazon, Meta, Microsoft, etc. coloca-nos questões relativamente ao poder que é exercido sem contar com a legitimidade do voto popular, influenciando os processos de decisão política e os media.
Nesta imagem do mundo, a Ibero-América aparece dentro da área de influência dos EUA. Nada de novo. A Região, se incluirmos as restantes partes da América Latina e Caraíbas, teve apenas 25 anos de relativa autonomia desde os atentados terroristas às torres gémeas até à “extração” de Nicolás Maduro, na República Bolivariana da Venezuela. Donald Trump retomou a Doutrina Monroe com o propósito de afastar os interesses de outras potências extrarregionais, e fê-lo no contexto de uma sociedade internacional anárquica e desordenada.
Para o teórico chinês Yan Xuetong, num sistema internacional anárquico, o poder é fundamental e «os interesses nacionais não são negociáveis». Sucedem-se as crises. Como resultado, aumenta a imprevisibilidade juntamente com o medo. Medo de agir, de falar e até de pensar. Atendendo aos fatores conjunturais mais percetíveis como a componente económica, tecnológica e militar, como podem os pequenos Estados e os seus cidadãos responder a estes desafios do nosso tempo?
É neste contexto que se impõe pensar na ideia da Ibero-América como um espaço de atuação e ou intervenção não excludente. Com 35 anos de existência desde a Cimeira de Guadalajara, em 1991, a Comunidade Ibero-Americana deixou de ser parte do imaginário e da retórica do discurso político e passou a existir no concreto através dos compromissos assumidos; do investimento público e privado; dos agentes no terreno: a Secretaria geral Ibero-Americana (SEGIB), a Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI), a Conferência dos Ministros da Justiça dos Países Ibero-Americanos (COMJIB), e a Organização Iberoamericana de Segurança Social (OISS); da oportunidade para os consensos na ocasião das cimeiras; e da cooperação ibero-americana, nas modalidades Sul Sul e Triangular, juntamente com as redes Ibero-americanas criadas nas mais diversas áreas. Juntos somos mais fortes e temos menos medo!
Os passos dados desde 1991 incluem também o alargamento do espaço ibero-americano através da participação de outros Estados e agrupações de Estados “observadores”, e das interações que daí resultam. Justifica-se, portanto, uma apreciação em conjunto que leve em conta o histórico e nos conduza no sentido da definição de um objeto assim como das metodologias adequadas para o seu estudo, e finalmente de um campo científico próprio que permita, por exemplo, alargar a oferta formativa nos vários ciclos, definir novos programas de intercâmbio, promover e reforçar o Campus Ibero-América, conceder bolsas de estudo e outros incentivos para a publicação de conteúdos em português e espanhol. Falamos de dar um passo em frente.
Arnold Toynbee (intemporalmente) observava que entre as características mais importantes da natureza humana, a educação constitui um «elemento espiritual» que favorece a mudança.
É desde a Cátedra de Estudos Ibero-americanos, criada em parceria pela OEI e a Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), que partilhamos uma experiência que se realiza em Portugal, onde os estudos ibero-americanos são escassos ou, pelo menos, se têm limitado sobretudo aos estudos do Brasil. Desde a sua criação, em março de 2022, já foram atribuídas 19 bolsas para a frequência do Curso Avançado de Estudos sobre a América Latina, experiência formativa que tem despertado o interesse não só de estudantes dos vários ciclos, mas de funcionários de diversas instituições, públicas e privadas, nacionais e estrangeiras. A Cátedra caracteriza-se pela interdisciplinaridade, trabalhando em áreas científicas diversas: Relações Internacionais, Comunicação e Cultura, Ciência Política, História, Economia. Ao mesmo tempo tem trabalhado no sentido de construir uma rede junto com outras universidades, e tem incentivado e apoiado várias publicações académicas e científicas, em português e espanhol.
A Cátedra de Estudos Ibero-Americanos OEI-UAL tem contado também com a colaboração das embaixadas latino-americanas em Portugal, beneficiando do interesse e presença recorrente dos representantes diplomáticos nos vários eventos que organiza. Assim, estamos convencidos que a partir da academia e da ciência, podemos contribuir para a criação de um sistema de informação e divulgação mais eficaz sobre o “acervo ibero-americano”, incentivar o debate e a reflexão sobre o ibero-americano desde uma perspetiva própria, trabalhar no sentido da promoção das Línguas, e articular e consolidar comunidades de conhecimento nas áreas prioritárias de investigação com impacto social. A ciência não avança sem a política.
O futuro dos Estudos Ibero‑americanos está estreitamente ligado ao valor estratégico que os Estados atribuam à Ibero-América na sua estratégia de política externa, e que, por isso, exigirá a formação de quadros especializados, assim como de uma investigação aplicada em temas relevantes para os Estados envolvidos e os seus cidadãos, como o das migrações, clima, tecnologia, segurança energética, criminalidade transnacional, e outros. Ao mesmo tempo, dependerá da valorização que se faça da diplomacia cultural que leve em conta, o capital ou património material e imaterial partilhado que cimenta a nossa comunidade.
Não esqueçamos as Línguas ‒ o espanhol, a Língua mais falada no Hemisfério Ocidental (entendido como o conjunto das Américas), e o português, a Língua mais falada no Atlântico Sul. As duas línguas da Comunidade Ibero-Americana que conferem a este espaço um potencial real de projeção para outros espaços, o africano e o asiático, reunindo perto de 900 milhões de pessoas, e que juntas se posicionam não muito distantes do inglês como Língua de comunicação à escala mundial.






