Hoje sabemos que a inteligência artificial transformará profundamente nossas economias. No melhor dos cenários, implicará uma reorganização substancial do mercado de trabalho. No pior, se continuarmos na trajetória atual, ampliará as desigualdades existentes, incluindo as de gênero, e gerará uma pressão crescente sobre as finanças públicas. Já se fala em perdas massivas de empregos e até na tributação dos robôs. Mas e se parte da solução passasse por reconhecer os cuidados como um direito humano e o cuidado como um bem público?
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), até 2035 poderão ser criados aproximadamente 32 milhões de empregos na América Latina e no Caribe ligados à economia do cuidado. Frente aos desafios impostos pela automação, não será o momento de pensar os cuidados como um setor dinamizador do conjunto da economia?
Existe um vasto setor da população cujo trabalho sustenta o funcionamento do mercado de trabalho sem fazer parte da economia formal. Em todo o mundo, e de forma particularmente visível na Ibero-América, milhões de pessoas, em sua esmagadora maioria mulheres, dedicam-se ao cuidado de crianças, pessoas idosas ou pessoas com deficiência. Este trabalho, essencial para nossas sociedades, é frequentemente realizado sem remuneração, sem férias e sem direitos de proteção social. Há décadas, diferentes correntes feministas sublinham que o doméstico é político. Hoje, esta afirmação assume uma urgência renovada.
A incorporação das mulheres no mercado de trabalho foi, no seu tempo, uma resposta eficaz a uma conjuntura econômica crítica. Após a Segunda Guerra Mundial, apesar das pressões para regressarem ao espaço doméstico, a sua permanência no emprego contribuiu para o crescimento econômico, para o aumento do consumo e para melhorias na legislação trabalhista. No entanto, essa transformação deixou uma promessa por cumprir: a distribuição equitativa do trabalho doméstico e dos cuidados.
Longe disso, o que vimos foi um aumento da dupla jornada das mulheres (trabalho doméstico e trabalho formal), bem como a consolidação de cadeias globais de cuidados: mulheres migrantes, muitas vezes em condições precárias, substituem o trabalho daquelas que saem para trabalhar.
Os números são eloquentes. Enquanto os dez homens mais ricos do mundo aumentam sua fortuna à razão de cem milhões de dólares diários, bilhões de horas de trabalho essencial em cuidados — realizado majoritariamente por mulheres e meninas em todo o mundo – que continuam sendo subvalorizadas. Esta desigualdade não é apenas injusta; é economicamente ineficiente.
Além disso, as dinâmicas demográficas reforçam a urgência de agir. Espanha já enfrenta uma estrutura populacional marcadamente envelhecida, enquanto a América Latina e o Caribe, embora ainda mais jovens, estão envelhecendo a um ritmo muito mais acelerado, como demonstram as análises da CEPAL e da OCDE. Nas próximas décadas, a demanda de cuidados aumentará significativamente, ao mesmo tempo que a automação reduzirá determinados empregos. Contudo, ao contrário de outros setores, o trabalho de cuidados não pode ser automatizado nem substituído por máquinas.
A equação é clara: precisaremos de mais cuidados, mais receitas públicas e novas fontes de emprego. Neste contexto, a economia do cuidado revela uma necessidade vital.
A União Europeia e 16 países da América Latina e do Caribe parecem ter compreendido isso. Em 2025 lançaram o Pacto Birregional sobre os Cuidados, cujo objetivo é consolidar um espaço de diálogo e cooperação em torno dos sistemas integrais de cuidados, abordando suas dimensões jurídicas, sociais e econômicas.
Como assinala a embaixadora Jennifer Feller, negociadora do México para o Compromisso de Tlatelolco, existem dois marcos que colocam a região da América Latina e do Caribe na vanguarda do reconhecimento dos cuidados. Por um lado, o Parecer Consultivo da Corte Interamericana de Direitos Humanos coloca a América Latina na linha de frente do reconhecimento do direito ao cuidado; por outro, o Compromisso de Tlatelolco, através da Década de Ação 2025-2035, estabelece um roteiro para a sua implementação efetiva.
No entanto, integrar plenamente os cuidados na lógica laboral exige uma mudança profunda de paradigma. Em sociedades marcadas por heranças coloniais e patriarcais, o cuidado continua a ser visto como uma obrigação privada, particularmente das mulheres, e não como uma responsabilidade coletiva. A isto soma-se uma visão masculina da meritocracia laboral que atribui o sucesso exclusivamente ao indivíduo, invisibilizando as redes de cuidados que o tornam possível.
As percepções sociais refletem esta diferença. Enquanto uma proporção significativa de mulheres identifica claramente a persistência de desigualdades de gênero, muitos homens tendem a minimizá-las. O mesmo acontece com a distribuição dos cuidados: uma maioria de homens considera que ela é equitativa, mas muito menos mulheres compartilham dessa percepção.
Reverter esta situação exige atuar em múltiplas frentes. Em primeiro lugar, é fundamental reconhecer o cuidado como um direito humano e como um pilar dos sistemas de proteção social. Isto implica introduzir regulamentação adequada e integrar os trabalhos de cuidado nas finanças públicas, por meio de mecanismos como contribuições para a previdência social, contribuições para a aposentadoria, entre outros. Para garantir a eficácia destas medidas, será necessário o envolvimento da sociedade civil e de setores representativos, de modo que participem das decisões que lhes dizem respeito.
Além disso, é indispensável colocar a formalização dos trabalhos de cuidado como uma prioridade nas agendas nacionais. Isso requer avançar na certificação de competências e na formação profissional. Neste sentido, a plena implementação da Convenção n.º 189 da OIT sobre as trabalhadoras domésticas constitui um passo fundamental.
Outro aspecto imprescindível é garantir um financiamento sustentável e multissetorial, com a participação do Estado, do setor privado e de outros atores relevantes.
Por fim, estas medidas não serão suficientes se não avançarmos para a desfeminização dos cuidados, reconhecendo que todas as pessoas adultas, mulheres e homens, em algum momento duas vidas cuidarão de alguém ou necessitarão de cuidados.
Negar o direito ao cuidado, a cuidar e a ser cuidado em condições dignas é aceitar uma forma estrutural de desigualdade. Na era da inteligência artificial, o verdadeiro atraso não será tecnológico, mas democrático, se persistirmos em economias que dependem de trabalho não reconhecido. A América Latina, o Caribe e a Europa têm hoje a oportunidade de liderar uma verdadeira mudança.





